Uma game jam é uma maratona: um tema é anunciado na abertura e as equipes têm um fim de semana, normalmente 48 horas, para transformá-lo num jogo jogável. Ninguém dorme direito, o escopo encolhe a cada hora e, no domingo, todo mundo mostra o que conseguiu.
Entre 2016 e 2019 participei de cinco jams em Curitiba. Cada uma ensinou algo diferente, e algumas dessas lições estão nos jogos do portal até hoje. Este é o diário delas, em ordem.
2016 — Ritual Run: a primeira jam, como calouro
A primeira foi a Global Game Jam 2016, na PUCPR. Fui sozinho, sem equipe, sem conhecer quase ninguém, e cheguei como calouro no pior sentido: os veteranos usavam a camiseta dos "Amigos da Jam", que custava R$ 15, e eu não tinha comprado. Na brincadeira do evento, isso me fazia um "Inimigo da Jam".
A abertura teve distribuição de brindes. O meu foi um "chiclete" da Unity que, na verdade, era massinha de modelar. Teve também uma palestra da Intel sobre as câmeras RealSense.
E não era uma jam pequena. O site de Curitiba daquele ano reuniu mais de 550 participantes e mais de 100 projetos, o maior do Brasil e o segundo maior do mundo.
O tema era "Ritual". Na hora de formar equipes, os sem-grupo se reuniram em volta de um participante de chapéu verde, umas nove pessoas. Dali fui recrutado pela equipe Capturados, e juntos fizemos o Ritual Run: um jogo multiplayer sobre uma senhora que sacrifica galinhas num ritual, em que cada jogador pode ser uma das galinhas, tentando escapar, ou a própria senhora. O jogo ganhou uma versão em WebGL para jogar no navegador e um vídeo.
A lição: você não precisa chegar com uma equipe. Jam é o lugar onde as equipes se formam.
2017 — Nami: shamisen, espíritos e C++ na Unreal
Na Global Game Jam 2017, o tema era "Waves" (ondas). A equipe tinha sete pessoas: quatro artistas, dois desenvolvedores e um músico. Eu fiquei com a programação em C++ na Unreal Engine. A sinopse do jogo, como está no vídeo:
Confiando em seu velho shamisen mágico de quatro cordas, Nami percorre sua vila enfrentando espíritos errantes que vivem na floresta.
O shamisen é um instrumento japonês de cordas, e foi a nossa leitura do tema: no jogo, ele emite ondas de cor e som. Cada uma das quatro cordas é uma habilidade de uma cor, e cada inimigo só é vencido pela onda da mesma cor. É uma mecânica que junta ação e leitura rápida: ver a cor do espírito e escolher a corda certa.
A divisão da equipe mostra como uma jam funciona quando dá certo, cada um no que faz melhor:
| Função | Integrante |
|---|---|
| Desenvolvimento na Unreal | Luccas Schmigel |
| Programação em C++ | Rafael Guimarães |
| Música | Sergio Justen |
| Modelagem 3D | André Bales |
| Rigging e animação | Luiz Kowalski |
| Arte 2D e level design | Gustavo Silva |
| Concept art | José Roberto Cahali |
A equipe também teve apoio de Paulo Souza e Manoel Balbino Neto, da Epic Games, a empresa que faz a Unreal.
O Nami teve vida depois da jam: ganhou site próprio, chegou à versão 1.02 e, no fim de 2018, começou um Nami 2.0.
A lição: numa equipe grande, a programação vira a cola. Meu trabalho era fazer a música, a arte e as animações dos outros funcionarem juntas dentro do jogo, com a jogabilidade.
2017 — Duo: um casal, um cão e um gato
Três meses depois, de 14 a 16 de abril de 2017, veio a Epic Game Jam, na etapa regional de Curitiba, na Hot Milk da PUCPR. Essa jam tinha uma exigência diferente: além do jogo, as equipes apresentavam marketing e plano de negócio, e os vencedores seguiam para uma final nacional. O jogo foi o Duo, um plataforma 2D de rolagem lateral para PC, feito na Unreal. A premissa:
Uma história de amor em que um casal, transformado por um feitiço em um cão e um gato, precisa cooperar para seguir em frente.
Um cão e um gato que precisam se ajudar é uma ideia que cabe numa frase e já diz como o jogo funciona: quebra-cabeças que só se resolvem com os dois personagens juntos. O conceito foi desenvolvido em 40 horas, e o Duo saiu da etapa de Curitiba com os prêmios de Melhor Arte e Melhor Jogo.
A lição: uma premissa simples e clara vale mais que muitas mecânicas. Os jurados entendem o Duo em dez segundos.
2017 — Spring Jam: a jam que decidimos não entregar
Nem toda jam termina com um jogo enviado. Em março de 2017, numa jam de Unreal com o tema "Spring into Action", nossa equipe de cinco pessoas se reuniu na HFA, a escola onde eu dava aulas.
A primeira ideia era um jogo de gravidade e molas, com um componente de gravidade dinâmica. Às 18h de sábado, com o protótipo sem graça, trocamos tudo por um jogo de boxe usando animações prontas do Mixamo. O modelador da equipe resumiu o ritmo do fim de semana: "nunca modelei tão rápido".
No fim, com três pessoas no local e uma remota, decidimos não entregar. O jogo existia, mas não chegaria ao acabamento que queríamos. Foi uma decisão consciente, não um abandono.
E teve um final feliz inesperado: em casa, no dia seguinte, minha esposa e meu filho criaram o próprio jogo de tabuleiro, inspirados pelo fim de semana de jam, alias pretendo colocar ele no GG Board, que ele permite adicionar fases facilmente em um editor.
A lição: trocar de ideia no meio é permitido, e não entregar também. A jam é sobre aprender; o prazo é ferramenta, não juiz.
2019 — Hero Runner: o que "lar" significa
A Global Game Jam 2019, de novo na PUCPR, teve o tema "O que lar significa para você". Nossa equipe tinha cinco pessoas.
A ideia começou em realidade virtual e foi encolhendo até virar um runner em terceira pessoa, feito na Unreal Engine 4 para Android e Windows. O herói é um cidadão comum que trabalha o dia inteiro para ganhar dinheiro, e no fim do dia corre de volta para casa, para a família.
Os bastidores combinaram com o tema. Esqueci várias coisas em casa, e a família foi até a jam levar: um monitor extra, toalha, escova de dentes e um Google Cardboard, o óculos de papelão para realidade virtual.
Engraçado que preparamos tudo para rodar em realidade virtual, com uma bicileta descendo a ladeira, mas na hora de experimentar, provocava enjoo, e a jogabilidade não estava legal, ai decidimos simplificar e transformar em um Runner mais simples. Talvez ficasse interessante com a bicicleta, mas daria mais trabalho pra deixar legal e não provocar tonturas é um desafio.
A lição: cortar escopo cedo salva o jogo. Um runner simples e terminado é melhor que um jogo de VR pela metade.
O que cinco jams ensinaram
| Jam | Ano | Lição |
|---|---|---|
| Ritual Run (GGJ) | 2016 | Equipes se formam na hora; vá mesmo sozinho |
| Nami (GGJ) | 2017 | Em equipe grande, a programação é a cola |
| Duo (Epic Game Jam) | 2017 | Premissa clara vence mecânica complicada |
| Spring Jam | 2017 | Mudar de ideia e não entregar são decisões válidas |
| Hero Runner (GGJ) | 2019 | Corte o escopo cedo |
Essas lições aparecem nos jogos do portal. O GGBoard e o GG Pacman foram pensados para jogar junto, como o Duo. E o Carregador de Mudanças é um jogo de regra única, do tipo que cabe num fim de semana.
Pra quem esta começando
Recomendo fortemente que tentem participar, para todos fins, pra aprender, pra ver, pra ajudar a testar, pra dar opnião, pra criar histórias, pra desenhar, pra conhecer pessoal, pra conhecer equipes, pra conhecer grandes profissionais apaixonados. Jans não exigem conhecimento algum, exigem vontade. Você leva seu corpo e interage com a alma, que vai se conectar ao ambiente mágico rapidamente.
Detalhes inicias gerais
Geralmente Jans são anunciadas em diversos canais, a GLobal Game Jan tem site próprio só procurar, acontece todo ano, geralmente no final de Janeiro. E existem outras Jans diversas, e todas com sua magia similar. A Global Game Jan, você tem 48 horas para desenvolver uma idéia digital ou não, você escolhe, relativa ao tema proposto. O Tema é mais pra ajudar todos ... se você quiser fazer algo totalmente diferente tudo bem, o tempo é seu, talvez o critério de seguir o tema na votação de melhor game no final seja comprometida, mas o que mais importa é você aproveitar o seu tempo para criar algo. E fazer qualquer coisa, faz a mente viajar tanto que você acaba não entregando nada. Focar em um tema, e ver outras equipes tentando, parece que as idéias vazam, e te contagiam. Isso é fenomenal, recomendo a experiência. Existe a hora que vc chega, credenciamento. Para registrarem a sua participação seja com equipe ou sem. Existe a parte de divulgação do Tema... Essa parte é mágica, e ocorre simultâneamente com outros países. Alguns recebem o tema "Depois" ... por questões de fuso horário. Ai vc não deve divulgar o tema antes... Até todos saberem ... E ai vc ta livre pra criar... Na GGJ Curitiba, tem vale pizza , e um café no Domingo. A Global Game Jan é gratuita. Você entra na Sexta as 18:00, e acaba no Domingo , com apresentação do seu game ao publico, e tem votação nos melhores. Momento mágico. (Geralmente eu fico exausto e perco essa magia da apresentação, mas vale tentar sempre que você recebe os feedbacks ao vivo, e observa as pessoas experimentando sua criação, é mágico) E tem o momento da premiação... E ja pude subir no palco com o Nami, e com o DUO.
TODOS GANHAM
Você vai ganhar experiência, talvez um jogo para seu portfólio, novos amigos, chuvas de oportunidades. Com o Nami, recebi o convite para ser professor de Unreal na HFA. Mesmo que você não consiga terminar, vai te dar experiência para o próximo. Ao menos vai mostrar a você novos passos e novas possibilidades.
E se você ganhar ?
Ai sim. Começa a nova etapa da vida. A hora que cai a ficha, que desenvolver é uma parte do processo complexa, e que as restantes são tão complexas quanto. Publicar o jogo, experimentar plataformas de venda, experimentar consumidores. É muita coisa pra aprender. Eu ganhei TODAS que participei, pois sai com algo desenvolvido que pude levar aprendizados no meu dia dia de trabalho e aprendizados únicos pra vida. Até a que não consegui entregar, ganhei bastante coisa. E ainda tento dividir os aprendizados, mas o maior de todos é, "Se permita" com amor, fé e calma.
